domingo, 30 de março de 2014

Não espere mudar o mundo. Mude apenas você!


Uma coisa que nunca devemos esquecer enquanto dependentes químicos é que não devemos acreditar que, por conta da nossa mudança de vida, as pessoas ao redor necessariamente mudarão também.

O mundo continua o mesmo, e olhe lá senão estiver piorando dia a dia.

A oferta para o consumo desenfreado de substâncias lícitas e ilícitas é crescente e explícito, o referencial de comportamento é imposto pela mídia televisiva e os considerados "normóticos" se deleitam nesse mar de satisfações momentâneas tanto quanto - e até mais que - nós quando nos encontrávamos na "ativa".

A diferença é que nós carregamos o estigma da dependência química e isso nos distancia do padrão aceitável de normalidade que protege as atitudes exageradas e desastrosas dessa parcela "normal" da sociedade.

Portanto, não espere que os seus entes mais próximos parem de beber ou se drogar por você não estar fazendo
mais o mesmo. Não imagine que eles vão parar de mentir, porque hoje você percebe que mentir não é saudável e denota um grande defeito de caráter. Não estranhe se eles cobrarem de você algo que eles mesmos não conseguem cumprir.

Não espere mudar o mundo. Mude apenas você.

Se seu entorno se transformar por isso, ótimo. Mas se não acontecer, conserve intacto seu novo ponto de vista e saiba recuar quando isso for necessário.

Ouvi relatos de companheiros que optaram pelo distanciamento de pessoas importantes em suas vidas por considerarem tais seres humanos prejudiciais à sua sobriedade, dentre elas, familiares.


Radical demais? Não sei.
Ainda acredito que nada nem ninguém tem o direito de colocar em risco a nossa sanidade.

Tudo é uma questão de autoconhecimento.

Hoje amanheci e me deparei com uma notícia triste. Uma companheira de batalha que conheci através desse blog tentou o suicídio. Por sorte, não teve sucesso. Porém, se encontra em uma U.T.I na cidade de Jaú, brigando pela vida, ou pela morte. 

Mas há dias vinha percebendo em suas postagens numa rede social um certo desconforto dela com relação às suas
relações interpessoais, e sua preocupação em se adaptar ao meio.

Não sei se essa pressão foi o estopim para tal atitude, mas devemos ficar atentos.

Resta agora torcer pelo restabelecimento dessa companheira, de quem prefiro preservar a identidade, mas que necessita muito de todas as nossas boas vibrações.

E entender que somos responsáveis pela nossa conduta e não pela do outro.

Só Por Hoje!



sexta-feira, 28 de março de 2014

Que seja feita a Sua vontade!

"Decidimos entregar a nossa vontade e a nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos."

O terceiro passo nos recoloca na posição de eternos aprendizes e recarrega nossa humildade.

É nessa hora que devemos deixar de lado nossas vontades egoísticas e concentrar-nos em nossa recuperação.

Assim fiz com relação à escolha das propostas de trabalho essa semana.


Muito tentado por uma das três propostas em especial, estava me esquecendo ou querendo não lembrar que não posso me deixar levar por nada que proporcione risco à minha sobriedade.

O mais engraçado é que sempre pensamos estar preparados e atentos às armadilhas, e muitas vezes até
estamos. Mas sempre imaginamos as armadilhas como algo que virá mostrando explicitamente sua face de periculosidade, quando muitas vezes ela se disfarça de algo bom e nos convence de que aceitá-la é a melhor opção.

Vislumbrando uma posição de destaque e um salário extremamente convidativo, por muito pouco não me expus ao risco de enfrentar novamente uma rotina de viagens, semanas fora de casa e toda a loucura do "trecho" novamente.

Iria simplesmente abrir mão da segurança de voltar para

casa todos os dias e estar ao lado dos meus para passar minhas noites em quartos de hotéis por esse país afora, em companhia de sabe lá quem.

Mas Deus tinha e tem um plano diferente para a minha vida e desenhou cuidadosamente o caminho que eu deveria seguir, me direcionando para o melhor nesse momento.

Hoje fiz a entrega da documentação para o emprego que Ele me preparou. Foi tudo muito rápido, fácil, pouco burocrático e até o que foi burocrático se desenrolou com naturalidade e agilidade. O emprego que não me colocará em risco e com toda certeza me proporcionará grandes
conquistas, pessoais e profissionais em médio prazo.

Não é o que vai satisfazer meu ímpeto de "aparecer", mas é o que vai garantir a proteção necessária com relação à proximidade do álcool e da droga.

Tenho certeza que é o mais saudável nesse momento.

Percebi que tenho que policiar mais meu ego e não me deixar cegar pela febre do ouro que o dinheiro traz.

Não posso sair da rota do reaprendizado que me propus e que têm me mantido limpo.


Só por Hoje!



terça-feira, 25 de março de 2014

E agora José? O que faço eu?


Porque será que eu tenho tanta dificuldade em tomar algumas decisões na vida? 

Confesso que quando decidi por viver e deixei de lado a ilusão da drogadição, pensei estar assim decretando o fim da indecisão em todos os âmbitos da minha vida. 

Pensei que, desse momento em diante, ficaria mais fácil escolher entre uma e outra coisa, o que quer que fosse.

Mas, através de algumas experiências que tenho tido nesses últimos dias, percebo que ainda me vejo atado a alguns comportamentos antigos. 

Estive esperando por 15 dias uma resposta relacionada à uma proposta de emprego que estava mal resolvida por questões burocráticas. Tal espera estava me deixando confuso e prestes a tirar minha serenidade. 

Porém, ontem recebi a ligação do departamento pessoal da empresa me pedindo para realizar apenas mais um
procedimento simples e tudo estaria acertado. Desta forma, teria de comparecer na empresa na quarta-feira, munido de um documento específico e pronto. 

Fiquei muito feliz, desliguei o telefone e, na sequência recebi outra ligação de uma segunda empresa me chamando para um processo seletivo. Por questões éticas compareci hoje no processo seletivo, mas mais por curiosidade e para cumprir o protocolo. 

E qual não foi a minha surpresa quando me deram a notícia de que fui aprovado?! 

Tanto uma quanto outra empresa é renomada e oferece um bom plano de carreira. Há algumas diferenças relacionadas a carga horária, mas que são compensadas pela remuneração relativa.

 Agora, cá estou. Eu, que tenho uma dificuldade tremenda em decidir, tenho agora que optar entre uma e outra.

E, como em toda área da minha vida, cabe a mim fazer isso.

Se minha saudosa Avó Emília estivesse por aqui ela diria que estou numa tremenda sinuca de bico (risos). 

Peço ao Poder Superior sabedoria para fazer a melhor escolha.

 Desejem-me sorte! Só por Hoje!


domingo, 23 de março de 2014

O nome dele é Zé Luís

Dar valor às coisas simples é algo que aos poucos eu venho aprendendo.

Reconhecer que o melhor da vida está num olhar, numa palavra, num abraço...

É muito gratificante perceber que o mundo ainda abriga pessoas de coração puro, bem intencionadas e dispostas a dar o melhor de sí em prol de uma causa. É assim que acontece com os grupos de ajuda, com os centros religiosos, com as ongs de defesa animal, etc.

E é sobre defesa animal que eu quero falar hoje.

Dois dias atrás, minha esposa trouxe até a mim a informação de que um cãozinho estava precisando de um lar temporário, pois estava se abrigando em uma vaga de estacionamento num condomínio habitacional aqui da cidade. Uma moradora extremamente caridosa estava
cuidando pra que ele pudesse se alimentar, mas infelizmente não poderia recolhê-lo em seu apartamento, já que isso era estritamente proibido pelas regras de moradia.

Pensamos bem e, mesmo sabendo que isso não seria tão simples, pois já possuímos três fêmeas (duas delas adotadas depois de grande, inclusive), decidimos hospedá-lo por alguns dias até que um dono definitivo fosse encontrado.

Ontem na hora do almoço fomos buscá-lo.

Quando meus olhos encontraram os olhos daquele serzinho tão convidativo, eu tive a pura certeza de que ele acabaria ficando aqui muito mais tempo que o previsto.

Trouxemos o menino pra casa, ele foi muito bem recebido pelas outras moradoras caninas, tomou um bom banho, e foi logo distribuindo suas contribuições.
Muito carinhoso, ele fez de tudo para nos agradar. Correu atrás da bolinha, nos encheu de lambidas, brincou de morder, ficou desfilando sua fofurice pelo quintal e foi oficialmente adotado.  

É... isso mesmo!

Nós adotamos o cãozinho. Ou melhor, ele nos adotou.


Batizamos o bichinho de "Zé Luís" (risos). Eu adoro nomes improváveis...

Bom, a verdade é que o clima que já estava ótimo aqui em casa, melhorou muito nessas poucas horas que ele aqui se encontra. Ele trouxe uma parcela a mais de harmonia nesse lar. E isso é mais entorpecente que qualquer substância.

Mas uma coisa é certa. Jamais teremos condições de usar nossa casa como lar temporário de cães, nós sempre vamos querer ficar com eles (risos).

Vamos valorizar as coisas simples... São elas que emolduram nossa felicidade.

Boas 24 horas para todos nós!
Só por Hoje!  



sexta-feira, 21 de março de 2014

Excesso Excelsior

Um dos primeiros contatos que eu tive com a arte foi por meio da poesia. Lembro que em minha adolescência, minhas retinas transformavam tudo em poesia. A dor, a alegria, as conquistas, as perdas....

Tudo se convertia em anotações harmoniosas num velho caderno de folhas amareladas que me acompanhou por muitos anos e fases da minha vida. Esse caderno ainda
existe e olhando pra ele hoje me perguntei se o poeta ainda existia também. Onde poderia estar escondido o restaurador de sonhos? Aquele que mesmo do caos extraía a leveza do belo...Onde estaria?

Segundo Benjamin Button, "os poetas não morrem, viram
lenda". Já o latim diz que lenda "é aquilo que deve ser lido".
Partindo desses princípios, hoje minha mensagem vem em forma de poesia. Simples, despretensiosa e apaixonada. Como deve ser.


Excesso Excelsior

De quantos excessos necessita uma vida?
Quantas vidas necessitam de excessos?
Expressos em versos, ocultos nos gestos,
Modestos até certo ponto, ao ponto de se transformar em contos ou cantos,
Nos cantos, aos Santos, em prantos,
São tantos...
Invadem discretos, se vestem de méritos, intrépidos, inquietos,
Controladores sem aceitação, não aceitam ação,
Tem cara de amor, aparência de missão, controlam a situação, ou não...
Acostumados ao sim, vão até o fim, afetam a mim, dominam você...
Têm sempre um porquê, precisam saber, não querem morrer, não sabem viver, mas juram o contrário,
Sem horário, seu salário é conseguir,
Garantir o sucesso do excesso,
Ter o acesso ao sentimento mais complexo,
Em anexo está o medo, a aflição o segredo,
Está a incerteza que se senta à mesa, que divide a cama, que às vezes reclama, que sabe que ama e que adora o drama,
Tem medo da lama e lá não vai mais brincar,
Carrega a certeza de não deixar de tentar...
Tem? Tá!
Eu sei, todos temos...
Desde cedo me excedo e sou induzido a tal,
Rádio, Tevê, Internet, Jornal,
Eu me excedo, tu te excedes, ele se excede, normal...
Não é? Não era? Não foi?
Onde está o controle?
Controle?!
Sim! Vamos mudar de canal...



Boas 24 horas para todos nós!
Só por Hoje!


quinta-feira, 20 de março de 2014

Um cara estranho

Não tem um dia em que eu não me depare com algum dependente químico na "ativa" pelas ruas dessa cidade.

É triste a sensação de impotência perante algumas situações tão humilhantes às quais  esses nossos irmãozinhos se dispõem. 

Dói pensar que essa doença do "ainda", se não for por mim levada a sério a todo instante, pode facilmente me subjugar a tais situações. Me expor às ruas, à imploração de trocados no farol, às histórias tristes sobre um fantasioso filho doente em casa que precisa de um remédio caro, aos furtos, às roupas judiadas e mal cheirosas, ao desprezo da sociedade que simplesmente fecha os olhos pra esses "caras estranhos".

Cada vez que avisto um irmão desses, agradeço a Deus por
estar limpo e ainda ter a chance de retomar minha vida, pois
sei que na "ativa" eu não sirvo pra nada. Retornam as mentiras, a negação, a compulsão incontrolável, as brigas,
as noites sem dormir, os dias sem me alimentar, a culpa, o medo, a depressão e toda a falta de amor-próprio.


Ontem, numa avenida do centro da cidade, um desses irmãos abordou uma senhora que estava dentro do seu carro parado. Eu estava saindo de um consultório com minha esposa e me atentei ao diálogo deles:

- Senhora, não precisa fechar o vidro não, meu interesse não é lhe fazer mal. Só queria uns trocados.
- Não tem nada, não, moço! 
- Senhora, eu só queria um trocado pra comprar algo pra comer, eu estou nessa situação, mas eu sou boa gente. E, além do mais, eu também estou ajudando a senhora, que ao meu ver também é boa gente e está tendo a chance de provar isso.

A mulher fez um movimento de quem alcançou algumas moedas no console do carro, esticou a mão pelo vidro semiaberto e entregou algumas moedas ao rapaz que, antes de
sair, agradeceu o ato e pediu a Deus que a abençoasse.

Naquele momento, aquele cara estranho e maltrapilho fez com que aquela senhora e eu repensássemos nossas atitudes.

Será que eu estou fazendo tudo o que posso para ajudar o próximo? Ou ando desviando os olhos e fechando vidros por aí? Será que eu não quero pensar no fato que o que me separa dele é o comprimento do meu braço, já que, uma vez que eu aceite usar drogas novamente, caminharei ao lado dele?

E você, tem feito o quê?

Só por hoje!


quarta-feira, 19 de março de 2014

O que queres de mim?


Ontem tive um "mix" de emoções que mexeram muito comigo.

A começar pela vontade tremenda que eu estava de ficar em casa no período da noite, assistindo os capítulos atrasados de “Scandal” (eu estou adorando a Olivia Pope!), sem ter que ir até o Centro Espírita simplesmente para acompanhar minha esposa, e passar por todo aquele processo de chá de banco e tal. 

Enfim, expliquei várias vezes que eu realmente estava decidido a ficar em casa, mas ela, com toda a sua insistência, me convenceu a ir por livre e espontânea pressão. Nem preciso dizer que fui mordido daqui até lá, conversando monossilabicamente durante todo o trajeto.

Chegando lá, como eu já previa, fui convidado a entrar na sala de trabalho, mas não aceitei mesmo estando bastante agradecido por isso. Sou medroso demais e enquanto eu não vencer esse receio vai ser difícil desenvolver essa habilidade mediúnica. Disse que ficaria na sala de espera, junto à moça que seria assistida. A médium que me convidara até disse que daria no mesmo se eu esperasse lá dentro e, em silêncio, pensei : “Ah, não mesmo, aqui eu fico de boa!” 

E é aí que começa a ficar interessante. A moça sentou ao meu lado, sorriu e começou a se confidenciar comigo. 

Disse que quase não conseguiu ir até o Centrinho, pois o
namorado é de berço evangélico e estava fazendo de tudo para que ela não fosse. Além do mais, ele tinha bebido o dia inteiro e provavelmente ele brigaria com ela em seu retorno.

Ela prosseguiu dizendo que tinha muito medo do que
poderia acontecer dentro da sala do trabalho, mas a curiosidade dela era ainda maior que o medo e tudo mais.

Eu, para não parecer mais antissocial do que já pareço, disse a ela que eu já tinha participado daquele trabalho como assistido, que também era medroso, mas tinha sido tão lindo e tão importante para mim que eu participaria de outros tranquilamente. Disse que seria muito bom pra ela entender o porque de estar acontecendo certas coisas em sua vida.

A partir daí, ela mudou bruscamente a postura e me disse: “Não sei porque, mas vou te uma falar umas coisas. Meu namorado, além de beber, faz uso de drogas, recentemente me agrediu fisicamente, não sei o que ele usa, mas sei que ele fica muito agitado e não dorme. Eu não sei o que sinto realmente por ele, mas acredito que seja minha missão cuidar dele.” E ela continuou, para minha surpresa total. “Como se não bastasse, meu filho também teve envolvimento com drogas, mas hoje está bem”. Contou ainda que ela própria tinha problemas com farmacodependência, tendo até sido internada numa clínica psiquiátrica.

 Eu sorri e disse: “Moça, eu entendo o que você está passando, pois também sou dependente químico, hoje em recuperação, mas já agi e muito como seu namorado”. 

Conclusão: ficamos cerca de 40 minutos trocando impressões sobre a vida, num clima de total sinceridade. A cada palavra, cada estória e cada opinião que eu dava a ela, sentia sua confiança aumentar. Era como, se pouco a pouco, ela fosse saindo de dentro da caverna que ela fazia de esconderijo. 

Chegado o momento de adentrar a sala, lhe desejei sorte e fiquei ali tentando entender aquilo tudo. Vinte minutos
depois ela saiu de lá, muito emocionada. Veio em minha direção, me abraçou e me disse o quanto tinha sido bom conversar comigo. 

Quanto a mim, ficou a impressão de ter trabalhado tanto quanto aqueles médiuns que estavam na sala. Eu estava ali
ainda atordoado por tudo aquilo. Estranhamente energizado por algo que eu desconhecia, mas que dava uma ótima sensação de dever cumprido.

Tudo muito estranho pra um cara estranho como eu. 

Só por Hoje!


terça-feira, 18 de março de 2014

Dias de luta, Dias de glória

Aos poucos venho conseguindo realizar tudo aquilo que me propus a fazer em meu retorno à sociedade.

Ontem dei início a mais uma dessas metas: aulas de violão. 

A atividade que se tornou muito presente em meu período de internação, já que tive que assumir o posto de salmista depois que o antigo responsável concluiu o tratamento, me fez perceber que isso era algo que me acalmava. 

Sempre tive contato direto com a música, porém mais ativamente como vocalista e letrista. Tocar e cantar ao mesmo tempo foi uma experiência nova e agradável para mim na C.T.

Cresci muito espiritualmente quando tive que começar a pesquisar louvores para tocar em visitas, reuniões religiosas da instituição e coisas assim. Mas a verdade é que eu sou um bom curioso e fuçador (ah, vá!), e tirava as músicas na raça, vendo as posições nas cifras e tudo o mais.Não sei ler partituras.Por isso as aulas serão muito importantes nesse quesito. 

O primeiro contato com o professor foi agradável e, quando ele pegou meu violão para afinar e fez alguns acordes, constatei que meu violão nunca foi tão sonoro (rs!).

Enfim, as coisas estão acontecendo de forma muito positiva em minha vida, mas, às vezes, isso assusta. Tão acostumado a tragédias inesperadas, fico ressabiado com essa maré de coisas boas.

É a falta de costume, eu acho. Mania de esperar o pior. 

Mas sempre me agarro àquela máxima: quem semeia o
bem, colhe o bem; quem semeia o mal, colhe o mal. 

Me sinto satisfeito com a condução das minhas 24 horas diárias. Sempre há tempo pra tudo no meu dia. E pensar que antes eu não fazia absolutamente nada e vivia sem tempo. 

Antes de dormir, minha esposa e eu fizemos a primeira sessão do clube do livro, que consiste em ambos lermos o mesmo livro e semanalmente nos reunirmos para discutir capítulo a capítulo. 

O livro de estreia é “Paulo e Estevão” (livro que já indiquei aqui, posts atrás) e, pelo primeiro dia, a atividade deixou a impressão de que vai ser genial. 

É isso aí! Busquemos o prazer de nossos dias. É óbvio que nem todos os dias serão de calmaria, mas os dias ruins também são necessários para que os dias bons valham a pena.

Nada paga nossa sobriedade. 

Haja o que houver, não faça o uso! 

Só por Hoje!


segunda-feira, 17 de março de 2014

O original não morre falso

Como é bom viver uma vida simples.

Durante muito tempo da minha vida eu vivi ostentando o inútil. Querendo mostrar para as pessoas o quanto eu estava bem, o quanto eu me relacionava com pessoas populares, o quanto eu mandava bem nas minhas rimas, o quanto eu curtia nas baladas...

Resumindo: me via condicionado a manter o personagem que eu criei para parecer intocável, sempre bem humorado e desprendido de problemas.

Por um breve momento, após a saída da CT, me vi caindo nos mesmos erros, querendo provar para os outros o quanto eu estava bem, preocupado com o que iriam pensar, dependente de aprovações. Agora, começo a perceber que não tenho a necessidade de ficar provando nada pra ninguém e muito menos saindo por aí para que as pessoas me vejam e atestem que eu estou bem. 

Não quero cair no engodo da autoenganação, propagando o
que é falso, oportunista, simplesmente para não ser esquecido na roda dos assuntos de antigos amigos em ambientes que outrora eu frequentara e que agora não adicionam nada em minha vida.

Se eu estou bem, ótimo. Se eu não estou, cabe a mim lidar com isso da melhor maneira.

Mudar de vida exige uma transformação radical. E isso só é possível se eu mudar, antes de tudo, minha maneira de pensar, de enxergar o mundo. E hoje, na minha ótica, não cabe essa paranóia de ser o "Tal". Só quero ser o Khal, e ponto. 

Há um momento na vida em que você tem que decidir se adentra a fase adulta ou fica pra sempre se afogando nos seus sonhos de adolescente, alimentados pelo receio de se enxergar como realmente é. Às vezes, a realidade é tão apavorante que nos escondemos em nosso universo paralelo para sempre, pois ali somos quem sonhamos ser e ninguém contesta isso. Mas não pode haver recuperação nesse caso. 

Agradeço, Senhor, pelo domingo maravilhoso que me proporcionaste.

Tranquilidade, diversão em família e consciência leve por estar conseguindo ser apenas eu. Sem fantasias, sem encenação e sem “coitadismo”.

Só por Hoje!


domingo, 16 de março de 2014

Paulo, Paulo, por que me persegues??



Bem, como prometido, hoje falarei do meu sábado.

Ele começou com um descontraído passeio até o parque ecológico da cidade com direito a violão e companhia vocal indispensável da minha esposa, que têm sido crucial nessa nova fase da minha vida.


No período da tarde, fui acompanhá-la até uma aula de Aprendizes do Evangelho em uma Casa Espírita e também para rever algumas pessoas importantes, e me deparo com a aula: A conversão de Paulo. Tema tão significativo para mim pelo seu enredo e contexto moral de entrega e renúncia.

Minha simpatia pela trajetória do Apóstolo começou quando
eu, ainda interno da Comunidade Terapêutica, fui presenteado pelo meu (até então) patrão com um exemplar do livro "Paulo e Estevão", obra mediúnica psicografada por Chico Xavier e ditada pelo espírito Emmanuel.

O livro é fantástico e conta a história desse incansável divulgador da Boa Nova sob uma ótica mais detalhada e me fez buscar o complemento de estudo paralelamente na Bíblia, consultando o "Ato dos Apóstolos" e as famosas "Epístolas".

Me motivou muito no processo de conscientização da minha doença, pois mostrou que sempre há tempo para mudar a trajetória de nossas vidas e atender ao chamado do bem, que incessantemente bate à nossa porta nos convocando para a interminável batalha "carne versus
espírito".

Me ensinou que muitas vezes seremos incompreendidos pela nossa forma de viver, pelo nosso distanciamento de algumas pessoas e pela aproximação de outras e também pela nova causa que decidimos defender.

Aprendi que nunca estarei sozinho. Sempre haverá ajuda do Alto e de enviados do Poder Superior para acompanhar nosso propósito de reformulação moral.

Pois mal nenhum é maior que a força de vontade quando ela vem do coração.

Aconselho a todos, espíritas ou não, adictos ou não, a lerem esse livro. Vale muito a pena.  

Fiquemos em paz!
Só por Hoje!






sábado, 15 de março de 2014

Vamos nos permitir!

Poxa vida, esses últimos dois dias foram bem legais. 

Começo relatando a super visita que recebi de dois dos meus companheiros de Comunidade Terapêutica, dos quais preservarei a identidade tomando a liberdade de citá-los aqui como Che Guevara e Robocop, apelidos esses que usávamos em nossas célebres partidas de futebol. 

Quem convive comigo sabe que eu não sou muito bom em receber visitas, não me considero um bom anfitrião, canso fácil do excesso de atenção que geralmente necessita ser dispensada ao visitante e sempre acho que o convidado deveria ser mais independente. Quer água? Vá lá e pegue! Viu alguma fruta quer comer? Não faça cerimônias. 

Mas, por algum motivo, eu fiquei realmente empolgado pela oportunidade de receber esses companheiros. Tanto que comecei a preparar as coisas para a recepção muito cedo, ajeitando a casa, confeccionando pães (arte que eu adoro exercer, por sinal), comprando refrigerantes e ficando visivelmente tenso.

O horário combinado era 16 horas. Às 15:45 tudo estava pronto e eu caminhava de um lado para outro, fumava um cigarro atrás do outro, até que minha esposa, com senso de observação aguçadíssimo e uma pitada e meia de extremo bom humor, disse: "Muito engraçado ver um adicto esperando outro. Pois o que está por vir dificilmente vai ser pontual. E o que espera, pelo seu natural imediatismo, quer que o outro chegue já". Ri muito com a descrição da cena.

Mas a tarde foi de muita energia positiva com esses
companheiros que não pestanejo aqui em chamá-los de amigos. Muita música, risadas, boas histórias, pães e coca-cola. 

À noite, fui acompanhar minha esposa ao Centro Espírita, pois como trabalhadora da Casa. ela teria um compromisso lá. Fui só pra acompanhar.

Por isso estava eu lá relaxadão, ouvindo um rock n' roll enquanto os assistidos esperavam para serem atendidos. Num dado momento, para minha surpresa, numa leitura labial imagino ter associado os movimentos bucais de um dos trabalhadores com meu nome. 


Penso: Puxa, estou vendo coisas!

Mas, para minha surpresa, ele diz mais alto o meu nome. "Mas, como assim? Eu não estou em tratamento espiritual, não nesse dia pelo menos...."

"Não importa, se direcione à câmara de passes", disse o senhor.

Conclusão: me esperava lá uma médium incorporada por uma entidade hiper do bem, que me deu um passe magnético muito power e me passou uma mensagem que até agora ecoa em meus ouvidos: "Você tem muitas coisas para realizar em prol do bem. Está na hora de trabalhar. Precisamos de pessoas com boa vontade, e isso sabemos que você tem."

Nem preciso dizer que pirei, né? Isso mexeu muito comigo. Foi demais! Coroou minha sexta-feira.

Me mostrou que tenho continuar permitindo-me experimentar a saída da minha zona de conforto.

Os relatos desse sábado merecem um post único, que será publicado amanhã. Aguardem!

Só por Hoje!


quinta-feira, 13 de março de 2014

18 dias e 1000 visualizações

O blog ‘Cotidiano Adicto’ nasceu em um momento de dor, de confusão. Dentro de mim, tinha a culpa de ter errado, mas também a vontade de voltar a acertar e recomeçar. 

Decidi colocar no mundo virtual a minha “folha de sentimento diário”, ou FSD, uma das ferramentas da recuperação em dependência químicas, e dividir com quem quer que fosse esses sentimentos.

Queria buscar companheiros em recuperação, sem nem imaginar que proporções isso tudo ia tomar.

No dia 23 de fevereiro, fiz meu primeiro post expondo a dificuldade e a necessidade de lidar com o meu orgulho para me manter em sobriedade.

Desde então, se passaram apenas 18 dias. Foram 16 relatos de como tento viver longe do álcool e das drogas, como convivo comigo mesmo, a dificuldade de entender os codependentes à minha volta e as vitórias de mais um dia limpo.

O encontro com outras pessoas na mesma condição motivou em mim a vontade de divulgar esse espaço, pois ele não é só meu. É de todos aqueles que vivem e convivem com a adicção.

Neste dia 13 de março, ao publicar “Pra frente é que se anda”, sobre a importância de deixar os erros para trás e construir um novo caminho, o blog surpreendentemente alcançou a marca de mil visualizações. Uma surpresa para mim.

Por dia, foram 58 acessos, únicos ou não, de pessoas interessadas no que eu sinto, por curiosidade, amizade ou solidariedade.  Em média, cada postagem teve 65 visualizações mas, é claro, há algumas com mais, outra com menos.


Como nem todos os leitores comentam as postagens, não é
possível saber quem são e porque acompanham esta página. Gostaria muito de ter uma ideia de quem são esses companheiros, tão importantes para mim nesta jornada
, coloquei no ar uma enquete para saber quem acessa o blog. Ela está do lado direito da página. Ficaria muito feliz se você participasse dela. É rápido e fácil.  

Pra frente é que se anda

"Não importa quantos passos você deu para trás e sim
quantos passos você dará para a frente". 

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." 

Essas frases de Neimar de Barros e Chico Xavier, respectivamente, norteiam nossa troca de experiências de hoje. 

Chega de ficar lamentando o que fizemos ou deixamos de fazer. O fato de termos errado só nós serve para alertar-nos
de que não podemos cometer os mesmos erros novamente. Não dá para ficarmos engessados a sentimentos de culpa e remorso. Já passou e ponto.

Eu sinceramente agradeço por ter descoberto que sou um dependente químico, adicto, pois hoje tenho a oportunidade de me tornar uma pessoa melhor, praticando o programa de 12 passos, ajudando o meu próximo com uma palavra amiga e um ouvido disposto. Me doando. 

Se eu rebobinar minha vida até um período atrás verei que muitas coisas se transformaram em meu modo de ser. 

Relembrarei que diversão e amizade para mim eram sinônimos de “chapação”, que relacionamentos eram sinônimos de traição e que estar bem era sinônimo de estar com a carteira cheia. 

Eu me importava mais com o "Ter" do que com o "Ser". 

Carregava para o meu travesseiro problemas e frustrações de semanas inteiras e acumulava cada vez mais coisas que eu não conseguia resolver devido à quantidade que se aglomerava. Eu não tinha controle nem ciência sobre mim. 

Essa incapacidade de lidar comigo fazia com que eu transferisse a responsabilidade das minhas não-conquistas aos outros. A culpa nunca era minha, mesmo sendo o tempo todo.

Por isso hoje me policio para não garantir o sucesso da minha recuperação em alguém que não seja eu mesmo. 

Não estou em recuperação pela minha esposa, minha filha, mãe ou qualquer outro familiar. Não estou nessa para agradar psicólogos, madrinha, monitores ou algo parecido. 

Estou nessa por mim. 

É óbvio que meu estado de sobriedade beneficiará todas as pessoas a quem estimo, mas não são elas as maiores interessadas. Foi muito importante entender isso.

Pois hoje eu encaro a desconfiança daqueles que sempre acham que acabamos de fazer o uso; que estamos de alguma forma usando controladamente (por favor, me diga como isso é possível?); e a insatisfação daqueles que assistem você progredindo e tendo boas ideias enquanto eles próprios, com toda autossuficiência e certeza de serem superiores, não saem do mesmo lugar como combustível para dar sequência ao trajeto contínuo e infinito da sobriedade.

Amigos, quem tem que gostar de nós somos nós mesmos.
Só assim estaremos em real harmonia com o mundo ao redor. Problemas de hoje são problemas de hoje, não levemos para amanhã.

A cada dia basta seu mal. 

Tenhamos um bom dia!

Só por hoje!!


terça-feira, 11 de março de 2014

Você tem fome de quê?

Descobrir uma maneira saudável de viver não se limita só a parar de usar substâncias psicotrópicas, abandonar velhas amizades e hábitos.

Consiste em adotar novos comportamentos.

Descobrir o que se gosta de fazer e pôr isso em prática.

Nós, dependentes químicos, enquanto na ativa, temos muita dificuldade em sentir prazer em algo que não seja a droga. 
Há casos em que até mesmo o sexo fica em segundo plano.

Em recuperação, se não buscarmos formas para suprir esse vazio deixado pela ausência da droga em muito pouco tempo estaremos ocupando nossos pensamentos com lembranças a princípio aparentemente inofensivas do uso. 

Voltarão as sensações dos bons momentos que a droga nos proporcionou (claro, porque nunca lembramos do caos que ela causou) e, quando menos notarmos, estaremos colocando em prática tudo aquilo que nosso subconsciente arquitetou, uma vez que a recaída se inicia bem antes do uso propriamente dito.

Por isso, é de suma importância ocuparmos a mente com atividades que nos satisfaçam mental e fisicamente.

Eu, por exemplo, adoro música, gosto de escrever, tocar
violão e sinto muito prazer quando consigo finalizar uma composição. Também gosto de exercícios físicos e, embora minha forma física teime em provar o contrário, reconheço que isso me faz muito bem, mas no momento tenho deixado a desejar nesse quesito.

Tá, tudo bem, mas aonde eu quero chegar com isso, você se pergunta agora.

O que eu quero é mostrar que manter-se em recuperação
não tem que ser algo mecânico, maçante, quadrado. Ao contrário, há a necessidade de ser prazeroso. Mas como pode ser prazeroso?

Cabe a cada um de nós descobrir o que nos faz a cabeça e nos dedicarmos a isso, usando toda a nossa disposição a nosso favor.

Vamos voltar a estudar, fazer aquele tão sonhado curso, vamos integrar o time de futebol do bairro, fazer a carteirinha do clube, ir ao cinema, teatro, vamos descobrir que a vida é muito mais do que nos acostumamos a ver.

Não tenhamos medo do novo. Só o novo nos manterá longe dos costumes do velho homem.

Pensemos nisso!

Só por hoje!